sexta-feira, 6 de março de 2009

A arte da transcendência

Existe uma bela história que eu adoro contar.... Diz a lenda que um dia, já em idade bastante avançada, Buda passava por uma floresta. Era um dia quente de verão e ele estava com muita sede. Então ele disse a Ananda, seu discípulo-mor: “Você precisa voltar, passamos por um pequeno riacho cinco ou seis quilômetros atrás. Vá, leve minha vasilha de esmolas e me traga um pouco de água. Estou com sede e cansado.”

Ananda retornou, mas, ao chegar ao local, percebeu que alguns carros de bois haviam atravessado o riacho, revolvendo o leito de folhas secas e deixando a água enlameada. Já não era mais possível beber daquela água, ela estava muito suja. Ele voltou com as mãos vazias dizendo: “ Você precisa esperar um pouco. Eu vou seguir a diante, pois ouvi falar de um grande rio a apenas três ou quatro quilômetros daqui. Eu trarei água de lá.”

Mas Buda insiste dizendo: “Volte e traga água do mesmo riacho.”

Ananda não conseguia entender tanta insistência, mas, se o mestre estava ordenando, o discípulo obedeceria. Assim, ele retornou ao riacho, mesmo sabendo que a água não era boa para ser bebida.

Ao retornar, Buda disse: “E não volte se a água ainda estiver suja. Se estiver suja, simplesmente sente à margem do riacho e permaneça em silêncio. Não faça nada, não entre no riacho. Apenas sente à margem em silêncio e observe. Cedo ou tarde a água estará límpida novamente, você poderá encher a vasilha e voltar.”

Ananda retornou ao local. Buda estava certo: a água estava quase límpida, as folhas tinham sido levadas, a sujeira tinha assentado. Mas ainda não estava absolutamente límpida. Assim, ele sentou à margem e apenas observou o rio fluir. Lentamente, ele se tornou transparente como um cristal e Ananda retornou dançando. Ele havia entendido por que Buda fora tão insistente, pois na sua insistência Buda havia deixado uma mensagem que ele compreendera. Ananda entregou a água a Buda e o agradeceu, tocando seus pés.

Buda então disse: “O que você está fazendo? Sou eu quem deveria agradecê-lo por ter me trazido água.”

Ananda retorquiu: “Agora eu entendo. No início, eu estava com raiva. Eu não demonstrei, mas estava com raiva porque achava que era absurdo voltar. Agora entendi a mensagem.. Sentado à margem do riacho, me dei conta de que a mesma coisa acontece com minha mente. Se eu mergulhar no rio, eu o sujarei novamente. Se eu mergulhar na mente, apenas criarei mais barulho, mais problemas serão desenterrados e irão começar a aparecer. Aprendi a técnica simplesmente ao sentar à margem.”

Fique sentado à margem de sua mente, observando sua sujeira, seus problemas, suas folhas podres, mágoas, feridas, memórias, desejos. Sente-se despreocupadamente à margem de tudo e aguarde o momento em que tudo estará límpido novamente.
Isto acontecerá por si só porque, no momento em que se sentar à margem de sua mente, você não estará mais transmitindo energia pra ela. Essa é a verdadeira meditação. A meditação é a arte da transcendência.

Trecho extraído do livro
http://www.esextante.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=498&sid=2&user=reader

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