sábado, 9 de janeiro de 2010

Upavása

Trechos do livro de Shrii Shrii Anandamurti sobre Shiva Namah Shivaya Shantaya, cap. 14

Na muktirtapanádhomádupavásashataerapi;
Brahmaeváhamiti jiňátvá mukto bhavati dehabhrt.

[A liberação não pode ser alcançada através de penitências, rituais de sacrifícios e centenas de jejuns. Os seres vivos alcançam liberação quanto realizam “Eu sou Brahma.”]


Aqueles que pensam que árduas penitências irão merecer a afeição de Parama Puruśa estão redondamente enganados. Eles tentam alcançar alguma coisa, mas falham miseravelmente. Parama Puruśa jamais disse, e jamais vai dizer, que alguém deveria violar a naturalidade da vida e tornar-se anormal, como um idiota vegetativo. Ao invés disso, Ele diz: “Cantem todos em uníssono – dirijam todos os seus anseios internos na direção do Supremo. Pensem em todas as dores e prazeres dos outros como sendo seus. Saḿgacchadhvaḿ saḿvadadhvaḿ saḿ vo manáḿsi jánat́am.”


De fato existe uma referência a tapah em Yama e Niyama [código moral], mas significando: “aceitar adversidades físicas pelo bem-estar dos outros”. Na verdade, a grandeza de uma pessoa está no grau em que ela é capaz de aceitar adversidades em favor do bem-estar dos outros. Mortais ordinários atingem a elevação da glória espiritual dessa forma. Essa tapah promove a pureza física e mental, e conduz à expansão mental e ao progresso espiritual; ela ajuda a abrir o portão dourado que leva à salvação espiritual. Por isso é que foi corretamente dito: “Penitências infrutíferas jamais levam à liberação.”


A palavra upavása é derivada de: upa (prefixo) – vas (verbo raiz) + ghaiň (sufixo). Upa significa “próximo”: por exemplo, upanagarii (“subúrbio” – “próximo de uma cidade”), upadevatá (“semi-deus” – “próximo de um deus”) etc.[1]


Como é que as pessoas deveriam se comportar no mundo? A única meta da vida é a prática espiritual – a realização do Supremo. Mas o corpo, composto dos cinco fatores fundamentais, e a mente, que está relacionada com o corpo, existem neste mundo físico. Portanto, a prática espiritual não pode ser mantida ignorando-se este mundo físico. As pessoas terão de levar suas vidas de tal modo que as suas tarefas mundanas sejam apropriadamente desempenhadas sem perturbar a prática espiritual, que é o objetivo primário da vida. Por isso, as pessoas terão de continuar sua prática espiritual como missão primária da vida, e ao mesmo tempo cumprirem suas responsabilidades mundanas, considerando que foram atribuídas por Deus.


Mas a psicologia humana é tal que, após desempenharem suas tarefas mundanas por um pouco, as pessoas desviam-se da meta principal da vida, algumas vezes tanto que elas tendem a olhar para as suas tarefas mundanas apenas como meios de auto-engrandecimento. Este é o momento da queda delas – a negra cortina da aniquilação total cai sobre as suas vidas.


Então, qual é a solução? Em dias ordinários as pessoas continuam a prática espiritual delas como sendo a missão delas na vida, e ao mesmo tempo cumprem suas tarefas mundanas, considerando que foram atribuídas por Deus. Mas em certos dias especiais (os dias devem ser determinados de acordo com o calendário, para que as pessoas não se esqueçam deles), as pessoas deveriam dar maior importância à prática espiritual do que às responsabilidades mundanas; ou seja, o tempo e energia delas, nesses dias, deveriam ser dedicados mais à prática espiritual do que às atividades mundanas. Esses dias determinados são chamados de dias de upavása, já que durante esses dias as pessoas, mantendo suas mentes envolvidas em assuntos espirituais, “vivem mais próximas” de Deus, e qualquer possibilidade de degradação mental é evitada: a humanidade delas não é colocada em risco pelas sombras da aniquilação que se espalham.[2]


Mas com o decorrer do tempo, o dogma esgueirou-se também para dentro deste conceito de jejum.[3] Algumas pessoas começaram a argumentar que o sistema de jejum é um meio para desenvolver-se a virtude: aqueles que realizam jejum provavelmente irão garantir um lugar permanente no céu, e poderão até mesmo ver os netos dos seus netos antes de morrerem! Além disso, foi dada uma importância indevida a uns poucos dias específicos de jejum – se as pessoas conseguissem jejuar nesses dias específicos, assim foi dito, elas iriam alcançar a bem-aventurança celestial, não apenas por uma vida mas por muitas vidas.


Portanto, vocês vêem que foi criado um monte de confusão com relação a esse assunto de upavása, ou jejum. Com a difusão desses dogmas, a própria dignidade de upavása foi destruída. Na verdade, jejuar mantém o corpo livre de doenças, puro e dinâmico, e torna a mente um campo fértil para a sádhaná, através da remoção das suas impurezas – mas uma pessoa certamente não atinge a virtude ou a liberação desse jeito.


Aqueles que realizam um jejum com o propósito de obterem virtude ou a salvação espiritual estão desnecessariamente criando problemas para si mesmos; não há benefício para os indivíduos ou para a sociedade. O jejum deve ser feito, mas fazer jejum com o próprio de alcançar a liberação é simplesmente jogar combustível na fogo.


Foi dito que os seres mortais podem aspirar à salvação através de penitências severas. Mas não se pode atingir a liberação oferecendo manteiga clarificada, arroz, trigo ou sangue animal no fogo de sacrifício. Do mesmo modo, não se pode atingir a liberação fazendo centenas de jejuns com a falsa esperança de que upavása irá propiciar virtude.


Então, qual é a solução? Os seres humanos mortais podem atingir a liberação somente se canalizarem todas as suas tendências psíquicas, todas as suas ondas de pensamento, em direção ao Supremo – e então o fluxo dinâmico das suas mentes, concentrado em um ponto único, torna-se uno com a Cognição Suprema, muito além do escopo de todas as amarras.


Mas os seres humanos não podem dar um passo sequer em direção a Parama Puruśa, muito menos alcançar a liberação ou a salvação, estudando inumeráveis escrituras, praticando penitências rigorosas sem fim, oferecendo inumeráveis combustíveis aos fogos de sacrifício ou fazendo jejuns por ganância de obter virtude.

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[1] N.T. original – E vas significa “viver”. O autor prossegue discutindo práticas que ajudam e que não ajudam uma pessoa a “viver próximo” de Deus.

[2] N.T. original – Como o jejum era costumeiramente realizado nesses dias, “jejum” tornou-se parte do significado de upavása. [Através de uma figura de linguagem, metonímia ou perífrase.]

[3] N.T. – Veja-se a nota anterior.

Trecho extraído por Mahesh.

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